A Ciência e a Especulação sobre o AERÓBIO em JEJUM

Por Dudu Haluch – 12 de outubro de 2015

AERÓBIO em JEJUMOs fundamentos do aeróbio em jejum, se baseiam basicamente na ideia de que o jejum aumenta a depleção dos estoques de glicogênio e a atividade física em jejum consequentemente, priorizaria a queima de gordura (oxidação), pela baixa disponibilidade de carboidratos. O aumento da lipólise no tecido adiposo subcutâneo, com a transição do repouso para o exercício moderado, é estimulado pela epinefrina (adrenalina) através da ativação dos receptores beta adrenérgicos e pela redução da insulina plasmática [1]. Quando as reservas de carboidrato estão baixas, como no jejum, o corpo se volta mais para a oxidação das gorduras para obter energia. Esse processo fica facilitado pela diminuição da concentração de insulina e pelo aumento das concentrações de adrenalina, noradrenalina, cortisol e hormônio do crescimento [2].

Não tão simples assim. Estudos mostram que se alimentar antes do exercício eleva o metabolismo. Aparentemente, o exercício amplia o efeito térmico do alimento (ETA), ou também chamado de termogênese induzida pela dieta (TID), que nada mais é que a energia necessária para digerir, absorver e assimilar os nutrientes alimentares (por exemplo, uma refeição de proteína pura induz um efeito térmico de quase 25% do valor calórico total da refeição). Desse modo, parece mais sensato encorajar o exercício moderado após o estado alimentado, e não ao jejum [3]

Maior oxidação de lipídios (queima de gordura) ocorre com intensidades de exercício por volta de 65% da VO2máx (consumo máximo de oxigênio) ou 75% da FCmáx (FCmáx = 220 – idade, frequência cardíaca máxima). Indivíduos treinados: 59% a 64% do VO2máx. Indivíduos sedentários: 47% a 52% do VO2máx [4]. Essa é a chamada “zona de queima de gorduras”, onde ocorre máxima oxidação de gorduras durante o exercício. Em intensidades mais elevadas, por exemplo 85% VO2máx, podemos observar uma diminuição significativa na utilização da gordura e um grande aumento da utilização de glicogênio e glicose, durante o exercício.

Quanto maior a intensidade do exercício, maior a EPOC (consumo excessivo de oxigênio após o exercício), que pode contribuir para um maior gasto energético pós-exercício. Porém, o EPOC só apresenta um significado fisiológico quando o exercício é realizado de forma regular (pelo menos 3x por semana) [5]. Embora o custo energético do EPOC em uma sessão de treinamento se mostre pequeno, seu efeito cumulativo poderá ter um impacto positivo no quadro da obesidade. O mesmo raciocínio é válido para a TMR (taxa metabólica de repouso). O exercício de alta intensidade estimula fatores de transcrição (PGC-1alfa) que atuam na biogênese mitocondrial (aumento no tamanho e no número de mitocôndrias). Com o aumento da quantidade de mitocôndrias, a oxidação de ácidos graxos (queima de gordura) é mais estimulada, o que otimizaria o emagrecimento [1]. Exercícios de alta intensidade também provocam um aumento exponencial na concentração plasmática de GH, enquanto exercícios de longa duração, mas baixa intensidade provocam um pequeno aumento. O treinamento intervalado de alta intensidade (TIAI, HIIT) induz alterações no metabolismo muscular semelhantes às induzidas pelo treinamento de endurance (sensibilidade à insulina, aumento do conteúdo de GLUT-4, capacidade cardiorrespiratória); dessa forma, mostra-se tempo-eficiente, pois em um menor tempo de atividade realizada a altíssimas intensidades, resultados semelhantes podem ser alcançados [1,6].

Voltando ao aeróbio em jejum (AEJ), ele geralmente é feito em intensidades da “zona de queima de gorduras” (~65% VO2máx). Os estudos não parecem suportar sua maior eficácia em relação ao exercício realizado em estado alimentado.

“A equipe de Coyle mostrou repetidamente que a ingestão de carboidratos durante a moderada intensidade (65-75% VO2 max) não reduz a oxidação de gordura durante o primeiro 120 min de exercício em homens treinados [7]. Curiosamente, a margem de intensidade proximal ao local onde a oxidação de gordura é mais alta não foi afetada pela ingestão de carboidratos, e assim permaneceu durante as primeiras 2 horas de exercício.

Equipe Horowitz ‘examinou o efeito durante o treinamento de uma solução de carboidratos com alto índice glicêmico em homens moderadamente treinados submetidos a um ou outro exercício de baixa intensidade (25% VO2 max) ou de intensidade moderada/alta (68% VO2 max) [8]. Resultados semelhantes ao trabalho de Coyle foram vistos. Os resultados indicaram que, apesar da supressão da lipólise após a ingestão de carboidratos durante o exercício, a taxa lipolítica permaneceu elevada e, portanto, não limitou a oxidação de gordura [9].”

O jejum também não se mostrou superior mesmo após seis semanas de Treinamento Intervalado de Alta Intensidade (HIIT) em mulheres obesas ou com sobrepeso. Ou seja, não é o estado de jejum que favorece a oxidação de Gorduras, como muitos acreditam, mas a intensidade do exercício (Gillen et al 2013) [10].

 

Eficácia do Aeróbio em Jejum

 

Um dos estudos mais usados pelos pesquisadores para contestar a eficácia do aeróbio em jejum, é o estudo de Paoli et al. (2011) [10, 11]. “Paoli et al. (2011), verificaram a diferença no metabolismo das gorduras durante um exercício aeróbio moderado (36min/65%FC) na esteira pela manhã em duas situações: 1) alimentado e 2) Jejum (Jejum de verdade, inanição total). Doze horas após o exercício, o grupo que se alimentou continuava com o VO2máx elevado, enquanto o quociente respiratório reduziu significativamente, indicando maior utilização de gorduras na situação alimentado, mas não quando os exercícios eram realizados em jejum. E 24hs após o exercício, a diferença ainda era significativa, com maior gasto energético e de gordura para quem se alimentou antes do exercício. Assim, os autores concluíram que o exercício aeróbio moderado, para perda de peso, realizado em JEJUM, não aumenta a oxidação de Gorduras e uma refeição leve é aconselhável [10].”

Embora esse estudo, como os anteriores, indique que o exercício em jejum não seja superior ao exercício em estado alimentado, é importante fazer algumas observações. Os estudos sempre consideram apenas uma atividade física realizada durante o dia, enquanto o mais comum é que os adeptos do AEJ realizem o exercício aeróbico de  manhã, e o treino resistido horas mais tarde. No estudo de Paoli o jejum foi de 12 horas, enquanto o mais comum é um jejum noturno de ~8 horas, e isso evidentemente pode fazer muita diferença no metabolismo pós exercício, já que 12 horas de jejum aumentam a importância da gliconeogênese hepática (conversão de aminoácidos, glicerol e lactato em glicose). Não acredito que essas diferenças possam provocar grandes mudanças nos resultados dos estudos, e sim, que em geral, a escolha do exercício, em jejum ou alimentado, não terá grande relevância nos seus resultados. Importante lembrar também que muitos adeptos do AEJ utilizam hormônios anabólicos (esteroides androgênicos, GH), e isso poderia induzir algumas alterações no metabolismo durante e após o exercício. Embora eu acredite que o exercício aeróbio em jejum, seguido do treinamento resistido realizado horas mais tarde, possa ser mais eficaz que exercício aeróbio em estado alimentado, nas mesmas condições, só posso dizer que isso não passa de especulação da minha parte e da parte da comunidade do fitness/bodybuilding e que os estudos, não podem nos dar uma resposta clara à esse respeito, apenas indícios de que provavelmente não exista diferença, ou ela seja pouco significativa.

Faça aquilo que faz se sentir melhor, não se iluda com marketing, e não pense que pode extrapolar seus resultados para todas as outras pessoas. Se é válido para você, continue. Não existe conflito entre a teoria e prática, e sim contextos diferenciados que ainda precisam ser explorados pela ciência para esclarecer a questão. Dizer que AEJ não funciona é uma grande bobagem (questão de eficiência), dizer que é melhor forma de se fazer cardio, é especulação.

 

Referências Bibliográficas

Carnevali Jr., Lima, Zanuto & Lorenzeti. Exercício, emagrecimento e intensidade do treinamento. Aspectos fisiológicos e metodológicos. 2ª edição.

Fisiologia do Esporte e do Exercício, 5ª edição

Fisiologia do Exercício, McArdle, 7ª edição

Determination of the exercise intensity that elicits maximal fat oxidation. Achten J1, Gleeson M, Jeukendrup AE; Med Sci Sports Exerc. 2002 Jan;34(1):92-7. Optimizing fat oxidation through exercise and diet. Achten J1, Jeukendrup AE. Nutrition. 2004 Jul-Aug;20(7-8):716-27

Comparison of energy expenditure elevations after submaximal and supramaximal running. Laforgia J1, Withers RT, Shipp NJ, Gore CJ. J Appl Physiol (1985). 1997 Feb;82(2):661-6

Physiological adaptations to low-volume, high-intensity interval training in health and disease

Coyle, et al. Muscle glycogen utilization during prolonged strenuous exercise when fed carbohydrate. J. Appl. Physiol. 1986;6:165-172. Coyle, et al.. Carbohydrates during prolonged strenuous exercise can delay fatigue. J. Appl. Physiol. 59: 429-433, 1983.

Myths Under The Microscope Part 2: False Hopes for Fasted Cardio, By Alan Aragon © 2006

Substrate metabolism when subjects are fed carbohydrate during exercise. Horowitz JF et al.. Am J Physiol. 1999 May;276(5 Pt 1):E828-35

Aerobio em jejum, Eduardo Porto, Gease, 2014. Gillen JB1, Percival ME, Ludzki A, Tarnopolsky MA, Gibala MJ (2013). Interval training in the fed or fasted state improves body composition and muscle oxidative capacity in overweight women. Obesity (Silver Spring). 21(11):2249-55.

Paoli A, Marcolin G, Zonin F, Neri M, Sivieri A, Pacelli QF (2011). Exercising fasting or fed to enhance fat loss? Influence of food intake on respiratory ratio and excess postexercise oxygen consumption after a bout of endurance training. Int J Sport Nutr Exerc Metab. 21(1):48-54.

 

Salvar

Salvar

Dudu Haluch

Dudu Haluch é Bacharel em física pela UFPR e mestre em física pela USP, possui cursos de nutrição e treinamento certificados pela IFBB Academy Brasil. Dudu é professor da pós-graduação Bodybuilding Coach, atua também como Palestrante e especialista em Fisiculturismo e Hormônios.

COMENTÁRIOS

  • Muito bom, parabéns!

    Cancelar a resposta

    DEIXE SEU COMENTÁRIO

    Seu endereço de e -mail não será publicado. Os campos necessários estão marcados..*

    The field is required.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Seu endereço de e -mail não será publicado. Os campos necessários estão marcados..*

The field is required.

Publicado por
Dudu Haluch

ÚLTIMAS POSTAGENS

Sintomas de Baixa Testosterona: Como Identificar e o Que Fazer

A Baixa Testosterona é um problema que afeta tanto homens quanto mulheres em todo o…

2 semanas atrás

As Vantagens e Benefícios do Treino para Redução de Gordura no Fígado

A gordura no fígado é conhecida tecnicamente como esteatose hepática e tem se tornado um…

2 semanas atrás

Inchaço que te Incomoda? Veja 6 Estratégias Naturais para Reduzir de Vez

Se você busca um corpo mais estético e em forma, certamente já se perguntou como…

2 semanas atrás

Tadalafila para Treinar: Funciona Mesmo ou Faz Mal? Entenda os Efeitos e os Riscos

Atualmente, vemos muitas pessoas usando o tadalafila como vasodilatador, uma estratégia diferente para conseguir melhores resultados…

2 semanas atrás

5 dicas para reduzir o acúmulo de Gorduras nas Costas e nos Braços

As mulheres naturalmente têm mais gordura corporal do que os homens, isso está comprovado devido…

2 semanas atrás

Guia completo para Treino ABCD (para avançados)

O Guia de Treino ABCD é uma proposta para hipertrofiar músculos com eficiência, seguindo dicas…

3 semanas atrás

Testosterona Baixa? Entenda como Melhorar Naturalmente

Uma dúvida muito frequente aqui no Portal Dicas de Treino é: qual a melhor estratégia…

3 semanas atrás

Renato Cariani: Treino de Ombros de 30 Minutos para Hipertrofia Rápida

Renato Cariani é formado em química e educação física CREF nº 027146-G/SP e também atua…

3 semanas atrás

Oxandrolona Emagrece ou Engorda? É possível ver resultados em quantos dias?

Oxandrolona emagrece? Essa é uma dúvida pertinente para quem está “explorando” a hipótese de aderir…

3 semanas atrás

Como Ganhar Massa Muscular Rápido: Guia para Resultados Rápidos e Duradouros

Ganhar massa muscular rápido não depende de fórmulas milagrosas, e sim de estratégias comprovadas, aplicadas…

1 mês atrás

Quais os efeitos colaterais do Masteron? ((ATENÇÃO))

Os efeitos colaterais do Masteron (drostanolona) são frequentemente subestimados. Por ser um esteroide anabolizante androgênico…

1 mês atrás

Queima Rápida: Especialista explica qual Treino Queima mais Calorias

Muitas pessoas buscam reduzir o peso e a gordura corporal, seja para ficar em forma…

1 mês atrás

OVO para quem Treina: Mito ou aliado no Ganho de Massa Muscular?

O ovo é um dos alimentos preferidos de atletas e praticantes de musculação. Fácil de…

1 mês atrás

Renato Cariani: revela melhor divisão de Treino para Ganho de Massa Muscular

Renato Cariani é formado em química e educação física (CREF nº 027146-G/SP) e também atua…

1 mês atrás

Top 10 Anabolizantes que mais Causam Calvície

Os anabolizantes ou esteroides androgênicos anabólicos, são hormônios sintéticos que estimulam o desenvolvimento de alguns…

1 mês atrás

Guia completo para Treino ABC (para avançados)

Com todas as rotinas de treino individual da sequência do Guia de Treino ABC já…

1 mês atrás

Dr. Paulo Muzy revela sua rotina de Treino para Ganhar Massa Muscular

Dr. Paulo Cavalcante Muzy, CRM‑SP 115.573, é especialista em Ortopedia, Traumatologia e Medicina Esportiva, é médico,…

1 mês atrás

Alimentos pouco usados que Impulsionam o Ganho de Massa Muscular

Sabemos que para ganhar músculos precisamos de alimentos fonte de proteína como frango, ovos, carne…

1 mês atrás

Lista dos Top 10 Anabolizantes para Ganhar Massa Muscular

Anabolizantes para ganhar massa muscular existem vários, porém, não significa que todos são seguros. Desde…

1 mês atrás

Lista dos Top 10 Anabolizantes para Secar (emagrecer)

Anabolizantes para secar realmente funcionam? Tem efeitos colaterais? Quais os principais e como agem? Veja…

1 mês atrás

TURINABOL – Para que serve, Benefícios, Função, Excesso, Colaterais e Como Tomar

Turinabol também chamado de Clorodehidrometiltestosterona é um esteroide anabolizante, no passado famoso e agora de…

2 meses atrás

PRIMOBOLAN (Nibal) – O que é, para que serve, Benefícios, Colaterais e Ingestão

Primobolan, Nibal ou “primo”, são nomes comerciais para o composto ativo Metenolona (masterona) que é um…

2 meses atrás