Musculação em Crianças e Adolescentes prejudica o crescimento?

Por Fernando Paiotti – 13 de dezembro de 2017

Existe uma lenda bastante presente em nossa sociedade que diz respeito ao fato de que só se pode começar a praticar musculação, a partir de uma certa idade, que varia entre 14 e 18 anos, dependendo do folclore regional. Os motivos desta proibição também mudam de local para local, envolvendo desde o clássico “ problema no crescimento ”, até traumas ósseos, comprometimento de força, problemas articulares e por aí vai.

Contudo, como já deixei claro, isto é uma tremenda bobagem, não passando de lenda, porém, existem algumas coisas nesse contexto com as quais realmente devemos tomar cuidado e prestar atenção.

 

Esporte e crescimento: a lenda

 

Nosso assunto do dia é a musculação, porém, existem várias modalidades associadas à elevada estatura, como basquete e vôlei, e também, à baixa, como ginástica olímpica. Ocorre que, por falta de conhecimento científico, as pessoas associam o perfil do atleta bem sucedido numa determinada modalidade, com o corpo que obterão ao praticá-la.

Sendo assim, muitas pessoas resolveram colocar seus filhos na natação e no basquete, sonhando que eles ficassem altos com o tempo, assim como são os principais ícones desses esportes, ou pelo menos as pessoas que se destacam nele.

Por outro lado, como vemos ginastas habilidosos e levantadores de peso muito fortes, normalmente baixinhos, em ambas as modalidades, estas atividades começaram a ser não recomendadas para crianças e adolescentes, por possivelmente comprometerem o crescimento.

Como disse, este é o cenário que predomina em pessoas leigas, estando atrelado à falta de informação científica da área, o que é normal e até esperado, cabendo aos profissionais de educação física destruir estes mitos. Porém, o que acho muito grave, é que existe uma parcela significativa dos treinadores que realmente acreditam nessas lendas, o que considero uma falha gravíssima, uma vez que ele irá perpetuar a ignorância, além de denegrir e desprestigiar totalmente todo um grupo de profissionais sérios…

Leia também:

Crianças e o Treino de Força / Musculação

Para acabar com este mito de uma vez, quero deixar uma coisa clara ao leitor: na maioria esmagadora das vezes, a menos que o sujeito seja absurdamente habilidoso, quem escolhe quem irá participar de uma determinada modalidade é a própria modalidade, e não o sujeito!

Em outras palavras, os jogadores que se destacam no vôlei e no basquete são altos, não porque a modalidade os fez crescer, mas porque esses esportes acabam priorizando (dependendo da posição do jogador) quem é mais alto, fazendo-os se destacarem. Prolongue isto no tempo e você entenderá porque no esporte profissional competitivo você acaba vendo sempre padrões corporais parecidos. Isto também vale para a natação e atletismo, por exemplo.

Por outro lado, em modalidades onde a força é muito importante, como o levantamento de peso, as baixas estaturas são favorecidas, por conta de questões de braço de alavanca que eu não gostaria de abordar neste artigo, sendo assim, mais uma vez, por serem indivíduos que se destacam, a sociedade enxerga neles o padrão corporal que irão obter caso também pratiquem aquele esporte.

 

Genética e comprometimento de crescimento

 

O que determina a altura que teremos ao final de nossa fase de crescimento é a genética, que pode ser um pouco influenciada por fatores ambientais, como nutrição e uso de hormônios, por exemplo.

A prática de atividades esportivas pode sim influenciar no crescimento, mas apenas negativamente, dado o que foi observado pela ciência, sendo o motivo o de exageros no envolvimento esportivo do jovem, como a especialização precoce, por exemplo.

Quando a atividade é praticada com muitos exageros, feito um caso de overtraining, sem dar o devido descanso ao sujeito, ela pode suprimir sim o crescimento, porém, se a atividade for interrompida, ele voltará a acontecer, inclusive de forma mais rápida, a fim de compensar o tempo perdido (chamado efeito catch up).

Porém, isto só será possível nos casos em que a atividade não trouxer nenhum tipo de lesão óssea na placa epifisária, que é o local do osso que cresce nos jovens até os 18 anos, mais ou menos. Caso isto aconteça, por exageros da prática ou mesmo por traumas, aí sim teremos comprometimento do crescimento, porém, ao contrário do que as pessoas imaginariam, o sujeito não ficará baixinho, mais sim deformado!

Cada osso tem sua placa de crescimento, sendo assim, se apenas um deles for danificado, os demais continuarão a crescer normalmente. Com isto, uma criança que tem o crescimento do fêmur direito prejudicado, por exemplo, terá uma coxa maior do que a outra e irá mancar pelo resto da vida, caso uma cirurgia de reparação não seja possível. Entenderam a ideia?

 

A questão da musculação

 

Bom, antes de encerrarmos, vamos falar mais um pouco sobre musculação. Pode acontecer de uma criança se interessar por musculação e querer praticá-la, o que não há problema algum, desde que ela seja muitíssimo bem orientada por um profissional de educação física que realmente saiba o que está fazendo, de modo a dosar adequadamente o treino para melhorar a qualidade de vida dela, sem lesioná-la.

Por falta de hormônios, a hipertrofia que ela obterá será quase insignificante, porém, ela terá ganhos em força, flexibilidade e, dependendo de como a atividade for pensada, poderá incrementar capacidade aeróbia e potência também. O mais interessante aqui é que, novamente pela falta de hormônios, os ganhos são praticamente os mesmos tanto para meninas, quanto para meninos.

Na adolescência, por outro lado, já temos a produção de hormônios como a testosterona, que irão influenciar no ganho de mais força e de hipertrofia, período este em que começam a aparecer as diferenças corporais nos indivíduos, fora o sexo.

Como todos sabemos, a musculação é uma das atividades favoritas desta faixa etária, porém, como ela está em crescimento, o treinamento ao extremo também poderá impactar negativamente no desenvolvimento da altura, assim como a utilização de esteróides anabolizantes, que interromperão o crescimento mais rapidamente.

 

Conclusão

No artigo de hoje, vimos que a ideia de praticar uma atividade física para crescer em altura é uma grande bobagem, sendo que o mesmo vale para o contrário: fazer musculação ou ginástica não deixarão o sujeito baixinho no futuro.

A crença ocorre uma vez que as pessoas tendem a associar o perfil corporal do sujeito que pratica uma determinante modalidade esportiva com o mesmo que terão ao fazê-la.

Por outro lado, falar que a influência do esporte no crescimento é zero é uma mentira, uma vez que, se ele for praticado com gigantesco excesso e má orientação, poderá sim afetar no crescimento do jovem, porém, como vimos, não será o deixando baixinho, mas sim, deformado.

Ficamos por aqui! Espero ter ajudado um bocado com este artigo no desenvolvimento do senso crítico de vocês e também tirado dúvidas sobre musculação e crescimento em jovens! Não se deixem orientar por amadores e aventureiros: aceitem apenas informações de profissionais altamente qualificados e atualizados, que sabem do que estão falando, pois estudam constantemente, conhecem a prática de trabalho e se baseiam em ciência, e não em achismos, lendas e tradições.

 

Referências bibliográficas

1- riscos e benefícios do treinamento de força em crianças: novas tendências. Steven fleck e aylton josé figueira jr. Revista brasileira de atividade física e saúde. V.2. N.1. 1997

2- damsgaard r, bencke j, matthiesen g, petersen jh, müller j. Is prepubertal growth adversely affected by sport? Med sci sports exerc 2000;32:1698-703.

3- weight training in youth-growth, maturation, and safety: an evidence-based review. Malina, robert m phd,1998.

4- moderate exercise during growth in prepubertal boys: changes in bone mass, size, volumetric density, and bone strength: a controlled prospective study. M. Bradney1, g. Pearce1, g. Naughton2,c. Sullivan2, s. Bass1,3, t. Beck4, j. Carlson2 ande. Seeman m.d.1,* article first published online: 1 dec 1998

5- santos, y. C. Et al. Porcentagem de maturação, velocidade de crescimento de variáveis antropométricas e neuromotoras de duas regiões distintas. Revista brasileira de ciência e movimento, v.5, n.02, p.52-60, 1991.

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7- georgopoulos n, markou k, theodoropoulou a, paraskevopoulou p, varaki l, kazantzi z, et al. Growth and pubertal development in elite female rhythmic gymnasts. J clin endocrinol metab 1999;84:4525-30.

8- impacto da atividade física e esportes sobre o crescimento e puberdade de crianças e adolescentes. Linear growth and puberty in children and adolescents: effects of physical activity and sports. Crésio alves, renata villas boas lima.

 

Fernando Paiotti

Bacharel em Educação Física pela Universidade de São Paulo (EEFE-USP), Mestrando em biomecânica pela EEFE-USP e Bacharel em Direito pela USP. É especializado em fisiologia e biomecânica do exercício, tendo realizado pesquisas na Universidade do Porto, em Portugal, e Tsukuba, no Japão, como bolsita da USP. Conta com mais de 15 anos de experiência em atividade física e atua como personal trainer, consultor online em musculação e em corrida e como colunista em alguns sites.

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